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Meio Ambiente
Entrevista exclusiva para o Portal GuapimirimOnline.com
Josely Nunes Villela é Mestre em Sistemas de Gestão pela UFF/RJ, especializada em Sustentabilidade no Master in Strategic Leadership towards Sustainability no Blekinge Institute of Technology (Suécia) e em Desenvolvimento de Recursos Humanos na FGV/RJ, com formação de Gerentes e Diretores na FGV/RJ, graduada e licenciada em Psicologia na PUC/RJ.
Atua como consultora em empresas públicas e privadas de diversos setores e como docente convidada em instituições de ensino superior, ministrando conteúdos relacionados a Planejamento, Sustentabilidade e Gestão de Pessoas. É sócia diretora da PrincípioSustentável Consultoria e Educação.
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| 1.Qual o principal motivo de estar em Guapimirim? |
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Em 2009 decidi realizar o sonho de morar em uma habitação sustentável que possibilitasse um trabalho educativo, especialmente com a comunidade local, visando uma mudança cultural para adoção de práticas sustentáveis. Havia vivenciado uma cultura avançada que me influenciou, conhecia a extensão da dívida social e ambiental de meu país e estava motivada a fazer a minha parte. O local deveria ter importância ambiental, por isso quando achei o imóvel que tinha a estrutura que o projeto demandava, dentro do Parque da Serra da Caneca Fina, que vem a ser uma APA (Área de Proteção Ambiental) da Mata Atlântica, a mudança do Rio para Guapimirim foi muito rápida. |
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2.No âmbito da conscientização e da preservação ambiental, quais seus pontos de vista com relação a nossa cidade levando em conta o último caso que saiu no jornal o Globo?
Fonte: http://www.guapimirimonline.com/principais_noticias1.php#concord |
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Esse tipo de degradação é um acinte. Infelizmente, no Brasil, a visão imediatista e a conveniência sobrepujam o propósito de desenvolvimento sustentável. Aqui se vê o discurso da sustentabilidade ser articulado sem conhecimento de causa ou ideologia, apenas porque é politicamente correto e dá “ibope”, logo não se mantém quando os interesses pessoais e eleitorais entram em cena.
Para mudar esse modelo, penso que tanto os governos quanto a população precisam mudar. A mudança dos governantes fica clara e talvez possa ser resumida em conduta ética e coragem para colocar as pessoas certas nos lugares certos, sem protecionismos e fidelidade partidária. E quanto à população?
A sociedade mantém valores e práticas insustentáveis, como o consumo e o desperdício que continuam exagerados, como a baixa adesão aos produtos ecológicos e reciclados e a prioridade pelos projetos que proporcionam bem estar imediato. Pela falta de conhecimento, a população continua degradando, por isso as impropriedades cometidas pelos governantes passam despercebidas pela maioria da população e somente uns poucos denunciam.
A proteção das nossas florestas ainda é frágil porque nossa consciência é frágil. O dia em que formos incorruptíveis, que os benefícios que nos oferecerem forem analisados na ótica do bem estar de todos, da ética e da preservação das futuras gerações, esse tipo de devastação não ocorrerá, porque teremos olhos vigilantes e seremos muitas vozes. |
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| 3.De acordo com o último IBGE nossa população cresceu mais que o esperado, e neste ritmo qual o futuro do slogan que é muito usado: temos 70% de mata atlântica preservada? |
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O bioma Mata Atlântica é o mais rico em biodiversidade do planeta e o mais degradado. Segundo o SOS Mata Atlântica “93% de sua formação original já foi devastada”, então não dá mais para discutir o benefício de preservarmos os 7% que restam. De acordo com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), Guapimirim abriga um dos maiores remanescentes de manguezal do estado e a APA de Guapimirim corresponde a uma área aproximada de 14.000 hectares. É pouco diante do que já foi, mas é muito importante para a luta em favor das florestas e das espécies, inclusive e, sobretudo, da espécie humana, porque nenhuma espécie pode sobreviver sem a floresta em pé. Quando estudei na Suécia, um contra argumento em favor do desenvolvimento sustentável era “quem deseja ser rico o suficiente para comprar a última árvore do planeta?”
O crescimento demográfico aumenta a demanda sobre os recursos naturais, interferindo na qualidade do meio ambiente, podendo gerar mais desequilíbrio. O planejamento da natalidade não é uma medida extrema, é uma necessidade porque chegamos a uma situação extrema de desequilíbrio ambiental. A mudança climática revela o nível crítico do desequilíbrio que imputamos à natureza e que vem afetando especialmente os mais pobres. Quanto ao bioma Mata Atlântica, o slogan deve ser “preserve 100% da Mata Atlântica que existe no seu quintal e plante árvores para aumentar o percentual de Mata Atlântica em sua cidade”. Só não vale plantar árvores de outro bioma. |
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| 4.Você vê na educação como o futuro do meio ambiente? |
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Sem dúvida alguma. Precisamos promover uma mudança cultural e é inteiramente improvável que ela ocorra mantendo-se o nível de desinformação da sociedade. Inspirada na máxima “pensar globalmente e atuar localmente”, cada Prefeitura deveria cuidar desta questão em seu município, tornando a cadeira “Educação Ambiental” (E.A.) obrigatória, do 1º grau à Universidade, por professores qualificados nesta matéria. E, é claro, promover ações de cidadania para exercitar os conceitos (ministrados e apreendidos) em prol da sustentabilidade local. |
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| 5.Quais suas sugestões emergentes para a despoluição de algumas de nossas águas? |
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Elaborei um projeto chamado “Rio Vivo”, que infelizmente não chegou a ser encaminhado para o edital pretendido. Ele é multidisciplinar e trata da reversão de processos de degradação dos recursos hídricos (nascentes, mananciais e cursos d’água), por meio do desassoreamento e do controle de erosão, da conscientização quanto ao uso e ocupação do solo, da recomposição de vegetação ciliar e controle de efluentes residenciais e industriais.
É claro que sem Educação Ambiental nada é possível, inicialmente dirigida às comunidades ribeirinhas, as primeiras interessadas na saúde dos rios pela proximidade e grande relação de dependência, seguida de uma campanha extensiva de conscientização de todos em prol de nossas águas. Como a questão da sustentabilidade não pode ser pensada de forma estanque, ela é sistêmica, a importância de nossos rios transcende os limites da nossa cidade – eles banham outras comunidades e deságuam na Baía de Guanabara. Em outras palavras, recuperando e preservando, geramos um reflexo positivo e degradando, geramos um reflexo negativo. Eu gostaria que escolhêssemos o melhor. |
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| 6.O COMPERJ e o nosso ecossistema. Qual a sua posição e o que nos afetará neste aspecto? |
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Como área diretamente afetada, Guapimirim deve empreender um Plano Diretor que contemple a análise de todas as variáveis de impacto sobre o município, o que implica em planejar a saúde, a educação e a infraestrutura de serviços essenciais, resultando em clareza sobre nossos pontos críticos e o que nos interessa preservar (natureza e segurança, por exemplo).
Sabemos que a população de Itaboraí tem prioridade de emprego, mas o volume de novos negócios aguardado para a região justifica o planejamento de ações como cursos de nivelamento, para reduzir a defasagem existente entre o nível de capacitação atual e o exigido, tornando nossos profissionais esclarecidos e mais competitivos. Acredito que a Administração do COMPERJ não vá adotar a política da má vizinhança, porque isso seria admitir que o objetivo do Pólo é gerar riqueza localizada e que a política do Estado é excludente.
No que se refere à implantação de unidades industriais em Guapimirim, a legislação ambiental protege 75% de nosso território que é APA, o que restringe a atratividade da área potencialmente livre para implantação desses empreendimentos. Restringe mas não impede. Precisamos gerar trabalho para nossa população, então não se trata de torcer contra essa possibilidade, mas de conciliar geração de riqueza com preservação, agindo com responsabilidade.
Por conta da vocação turística e de termos locais de moradia aprazíveis, existe a possibilidade de atrairmos uma população de média e alta renda, o que pode favorecer enormemente o município. O risco de especulação imobiliária existe onde existe conivência administrativa e desinformação da sociedade, ou onde a parcela esclarecida da população silencia. São problemas que devemos gerenciar com olhos de oportunidade e não de ameaça, tendo clareza sobre o que queremos para nosso município. Isso deverá resultar em grande amadurecimento. |
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| 7.Hoje, você desenvolve alguma ação no município? |
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A “Casa Sustentável”, que vem a ser a iniciativa pessoal que me trouxe para Guapimirim, ainda não está inteiramente pronta. No momento, estou articulando parcerias com empresas detentoras de outras tecnologias sustentáveis, ainda não implantadas, para acelerar a finalização do projeto, que pretende (1) realizar cursos, palestras e oficinas sobre Sustentabilidade e projetos sustentáveis, (2) mobilizar a comunidade para equacionar os problemas críticos que geram degradação e (3) servir de exemplo.
Estou trazendo para Guapimirim, o projeto para condomínios, baseado no trabalho educativo com os moradores e empregados e no gerenciamento dos resíduos, com soluções produtivas e rentáveis da parcela orgânica e reciclável. Tornar os condomínios sustentáveis é uma medida inteligente, até mesmo do ponto de vista da sua valorização. A boa notícia é que há interessados.
Acredito no potencial das pessoas de Guapimirim, de diferentes níveis de escolaridade, sei o quanto são solidárias e abertas a mudanças. Testei essas competências na prática, por ocasião da minha pesquisa de Mestrado quando, após uma palestra sobre o tema Sustentabilidade, solicitei a um grupo de pessoas que, por trinta dias, usassem ecosacolas nas compras de supermercado e criassem alternativas para substituir as sacolas plásticas na embalagem do lixo. Sugeri, ainda, que gerenciassem os resíduos, separando os materiais recicláveis da parcela orgânica. O resultado foi surpreendente: 64 sacolas plásticas/dia e 1920 sacolas plásticas/mês deixaram de ser lançadas no lixão da cidade naquele período; obtive adesão de 70% das pessoas à proposta de gerenciamento de lixo; o jornal foi apontado como a solução substituta, uma mudança cultural de baixo custo e grande benefício. Essa experiência foi realizada com trinta pessoas, imagine o impacto positivo sobre o meio ambiente se aumentássemos a amostra. |
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| 8.Encontramos em seu site www.principiosustentavel.com o projeto Casa Sustentável. É possível nos dar uma síntese aqui? |
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O projeto está assentado em três eixos: Educação, Mobilização e Vivência cujos objetivos, respectivamente, são:
- Informar para despertar consciência sustentável, respaldando ações de responsabilidade sócio-ambiental.
- Mobilizar indivíduos, grupos e comunidades, intervindo em pontos de vulnerabilidade ambiental incorporados à cultura.
- Proporcionar experiência no modelo de habitação sustentável, divulgando o conjunto de soluções implantadas.
Todas as atividades previstas nos três eixos pressupõem um intenso diálogo sobre a questão da Sustentabilidade com os diferentes atores sociais: alunos, professores, empresas, moradores locais e do entorno, hóspedes e visitantes.
A obra de restauração da casa transcorreu de acordo com princípios sustentáveis, que modelaram seus principais desafios:
- Baixo impacto (preservação da natureza e ausência de desperdício)
- Funcionalidade (busca de soluções adequadas à dinâmica funcional e à convivência)
- Baixo custo (demonstração de que é possível “fazer mais com menos”)
- Sustentabilidade (adoção de soluções e materiais sustentáveis)
As soluções implantadas (algumas em fase final de implantação) foram as seguintes:
- Sistema conjugado de chuveiro a gás e energia solar (Belosol,), representando efetiva redução do consumo de energia elétrica.
- Torneiras com temporizador (nos banheiros e lavabos) e descargas com duplo fluxo, racionalizando o uso de água limpa.
- Captação de água da chuva (Bella Calhae Rainus 3P, um produto validado na Europa e distribuído no Brasil pela Acquasave), destinada a rega de áreas verdes, por meio de calhas com separador de folhas, estocagem e tratamento em reservatório específico.
- Reaproveitamento da água proveniente da lavagem de roupas, utilizada na limpeza da área externa, a partir do estocagem e tratamento em reservatório específico.
- Aproveitamento de pisos e madeiras pré-existentes (utilizadas, inclusive, na confecção de móveis) e madeiras de demolição.
- Tratamento de esgoto (Sistema Hidraulis, uma tecnologia brasileira de fossa séptica, fabricado de acordo com as Normas Brasileiras de Regulamentação da ABNT que assegura diminuição acima de 93% de coliformes. Na Casa Sustentável sua implantação resultou na troca de todas as tubulações hidráulicas e desativação do sumidouro)
- Churrasqueira de pedra vulcânica, aquecida a gás, sem uso de carvão vegetal e produção de fuligem.
- Compra de madeiras certificadas, advindas de manejo sustentável (Serrana).
Na fase posterior à obra, está prevista a implantação das seguintes práticas sustentáveis:
- Separação de lixo na fonte;
- Compostagem para produção de fertilizante, a partir do aproveitamento de material orgânico (folhas, galhos, cascas de frutas e legumes);
- Catalogação das árvores presentes no terreno e plantio de novas espécies da Mata Atlântica;
- Horta orgânica para consumo interno.
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9.Qual a responsabilidade da população em preservar o que é nosso?
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Toda responsabilidade, embora sabendo que este é um ideal ainda não realizado. Estamos assistindo uma transformação sem precedentes em sociedades historicamente submetidas ao despotismo, fruto de uma tomada de consciência em massa. O que aprendemos com essas mobilizações? Dentre outras lições, que é possível mudar concepções e escolhas, quando existe uma nova visão de sucesso compartilhada por muitos. Se o desejo das pessoas for de mudança para uma sociedade sustentável, mais ética e justa, não tenho dúvida de que nosso comportamento e nossas escolhas, inclusive políticas, irão refletir essa tendência. |
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| 10.Como a Prefeitura local e a Secretaria responsável pela área ambiental podem contribuir visando um crescimento ordenado e sustentável? |
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Como órgãos que zelam pelos interesses do município, o bem estar da população e a preservação dos recursos naturais, devem estar atentos para as impropriedades ambientais cometidas, impedir que os empreendimentos imobiliários degradem o patrimônio natural, não aprovar obras que desrespeitem a legislação ambiental. E, principalmente, educar a população para tornar realidade o projeto de desenvolvimento sustentável.
Por outro lado, lembrando que a sustentabilidade é um projeto que se faz global, pelo somatório de iniciativas localizadas e que necessita ganho de escala, é importante incentivar os projetos sócio-ambientais existentes no município. Na prática, empreender um projeto social é um desafio que exige consistência, persistência e apoio. A cultura de apoio no Brasil tem avançado por parte da iniciativa privada, mas necessita ser mais exercitada pelos governos locais. |
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